Histórico da Família Léda

Leão ainda requereu ao juiz de Direito interino um habeas-corpus preventivo, conforme se pode constatar através de notícia do Jornal do Comércio, em 04.10.1898:

Consta que vai ser encarregado notável advogado do Rio de Janeiro de solicitar Habeas-Corpus preventivo, em favor do Coronel Leão Leda e de outros chefes políticos, ameaçados em sua liberdade, por causa dos últimos acontecimentos em Grajaú, dos quais resultou a morte do Promotor Público Estolano Polary.

Parsondas Carvalho, jornalista maranhense íntegro e conceituado, que escrevia crônicas para o Jornal “A Pacotilha”, as quais eram também publicadas no Jornal do Brasil do Rio de Janeiro, diz em crônica do dia 29.01.1902, que “a força se avizinhava e Leão, colocado entre duas hipóteses, resistir à violência ou retirar-se, preferiu esta. Retirou-se”

Quem teve oportunidade de analisar documentos e Relatórios de Governo deste período, verifica o quanto foi gasto em recursos públicos para exterminar o poder político de Leão Leda. Aliás, o Governador dizia que o Estado estava falido, que obras não podiam ser realizadas devido às enormes despesas para manter as tropas em Grajaú. LEÃO resistiu bravamente enquanto foi possível. A família passava por grandes dificuldades financeiras e por toda ordem de dificuldades. O único caminho para não ser morto e garantir a segurança de seus familiares era a retirada do grande líder para um lugar desconhecido.

Assim, acatando aos pedidos de amigos e familiares, Leão cruzou o Tocantins e foi asilar-se em Boa Vista (hoje Tocantinópolis) no Estado de Goiás, onde mantinha o propósito de produzir sua defesa no juízo competente, visto que havia sido nomeado para a Comarca de Grajaú um juiz de Direito respeitável, que se negava ser instrumento de manipulação na mão de quem quer que fosse – o Dr. Caio Lustosa. Entretanto, os amigos de Benedito Leite o convenceram a demitir o Juiz, para dificultar ou mesmo impossibilitar que os procedimentos judiciais seguissem sua marcha normal. Havia depoimentos atestando que ele nada tivera com a morte do Juiz Polary e ele queria provar o seu não envolvimento no crime.

Mas, com a retirada de Leão o massacre não cessou. Seu prestígio continuava se estendendo a todo o sertão e incomodando os governistas. Como diz COUTINHO:

 A sombra de Leda parece deitar-se em todo o sertão maranhense, e seu prestígio e apoio popular crescem a cada dia – logo assemelha-se a um mito e cada ação sua é interpretada como um desafio ao governo estadual. O governador não podia aceitar. Benedito Leite vocifera e a ordem é perseguir e prender Leão Leda e seus simpatizantes. (p.186)

Ainda durante o ano de 1900, ano em que se refugiara em Boa Vista, a presença de Leão Leda em Riachão, acompanhado de forte segurança, foi noticiada. Na realidade, conforme explica Parsondas Carvalho, ele retornou para buscar seus gados, para vender os imóveis e alienar algumas fazendas. Desejava se estabelecer definitivamente em Boa Vista e fundar lá outras fazendas. Jurado de morte se fez acompanhar de cerca de 30 homens armados, para auxiliá-lo na condução do gado e também para garantir sua vida. Esse fato foi considerado uma provocação aos seus adversários que, para desmoralizá-lo, começaram a espalhar o boato de que ele e seus homens tinham vindo roubar gado das fazendas, para levar para Goiás.

Novamente são destacadas forças para combater Leão Leda. As tropas agora são confiadas à chefia do tenente-coronel João de Deus Moreira de Carvalho, com a ajuda dos capitães Bibiano e Nicolau, que iriam juntos dar continuidade às arbitrariedades, escrevendo páginas de sangue na história dos sertões maranhenses.

As tropas governistas foram procurar Leão primeiramente na fazenda “Canto Grande”, onde não o encontrando destruíram tudo o que ali havia. Seguiram então para a fazenda Carolina, onde ele realmente se encontrava. Como nos diz Parsondas, em vez de entregarem mandados de prisão, o que se ouviu foi a voz das suas espingardas. Leão e seus homens reagiram e o capitão Bibiano teve que fugir, conduzindo o Capitão Pedro ferido e deixando mais dois soldados baleados, dos quais Leão humanamente tratou.

Amigos e parentes de Leão pediram para que ele retornasse imediatamente a Goiás, a fim de evitar piores conseqüências e que deixasse para outra época a retirada dos seus bens. Leão concordou e voltou a se instalar em Boa Vista. Na ausência do líder, a violência dirigiu-se ainda mais forte contra seus aliados, amigos e familiares. A ordem era perseguir até a morte todos os que lhe dessem qualquer tipo de ajuda ou mesmo apoio moral. Era preciso inclusive acabar com os bens dos Moreira, para evitar o patrocínio financeiro a Leão. Foi uma época de barbaridades, onde aqueles que haviam acolhido Leão foram torturados, mortos, tiveram roubados os seus bens e incendiadas suas fazendas. A intenção era submetê-lo a total isolamento, o que levou Parsondas Carvalho a escrever em suas crônicas:

As justiças medievais nunca exigiram que o criminoso não tivesse amigos, não tivesse quem por eles se interessasse, lhe desse agasalho e alimentos. Este pedaço de costumes sociais ficou reservado para o fim do século XIX e devia marcar na história da civilização o período brilhante em que o senador Benedito Leite governou discricionariamente o Maranhão.

Foi necessário que um Jornal do Rio de Janeiro publicasse os artigos escritos por Parsondas Carvalho, onde ele denunciava a situação brutal e as ilegalidades cometidas pelas tropas enviadas e financiadas pelo governo do Estado do Maranhão a Grajaú. Em nome da lei, dizia ele, esses facínoras invadiam e queimavam propriedades, estupravam, torturavam e matavam até crianças, em busca de qualquer informação que os levasse a Leão Leda.

A repercussão desse artigo fez com que fosse enviada uma comissão a Grajaú para observar e relatar a situação existente. O relatório dessa comissão constatou a existência de uma situação de violência extrema, com ações de vingança, de forte cunho político e de vantagens pessoais.

Diante do clamor público, que poderia prejudicar a imagem de Benedito Leite, e como Leão continuava desaparecido, o Governador resolveu determinar o fim das operações e deu por encerrada a Guerra do Leda.

Socorro Cabral, escrevendo sobre o fim do conflito, assim se expressa: “A derrocada dos Leda e dos Moreira representou não só a derrota de um clã, mas a destruição das lideranças locais, liberais que resistiam à introdução de mecanismos de controle político da região (p.192.)”. Segundo essa historiadora, esses líderes políticos não desejavam a integração dessa área do sul do Estado ao poder central, localizado em São Luís. Sonhavam e tentavam criar um poder regional forte, baseado na valorização da memória e das tradições culturais dos sertões maranhense. E ela conclui: “A derrota dos Leda representou a derrota do sertão, na medida em que essa integração significou sujeição do sul do Maranhão às decisões governamentais tomadas pelos oligarcas de São Luís” (p. 192 e 193). S. Cabral cita também os irmãos Leda, Luis e Leão, como figuras representativas na tentativa de formação de uma identidade regional, ao lado de Parsondas de Carvalho, Alcides Carvalho, Carlos Leitão e Padre Balduíno.

Embora oficialmente o conflito tenha sido encerrado, a realidade era outra bem diferente. A perseguição aos membros da família Leda e Moreira continuou ainda por muitos anos, até ter um terrível desfecho.

Sobretudo Leão Leda, passou a ter sua memória e sua honra vilmente atacadas, numa tentativa de colocar a população contra ele, o que de certa forma já era uma estratégia para liquidar com sua vida e garantir aos seus assassinos as honras de benfeitores do povo sertanejo. Todos os que se diziam amigos de Leão Leda, ou parentes, mesmo os mais distantes, eram perseguidos. E muitos foram barbaramente assassinados.

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