Histórico da Família Léda

O MASSACRE DE UM LÍDER: ATÉ ONDE PODE LEVAR A LUTA POR UM IDEAL E UM SONHO?

Como já foi relatado, Leão Leda foi para Goiás, passando por Carolina do Norte, onde o acolheu o Sr. Cantídio Justino de Medeiros. Passou por Pedro Afonso, por Conceição do Araguaia e finalmente fixou residência em Boa Vista, hoje denm 1900, Leão instalou-se e com o passar do tempo começou a reestruturar-se financeiramente, adquirindo a FAZENDA PRATA e algumas casas nos arredores da cidade, o que lhe permitiu trazer para a cidade sua numerosa família.ominada de Tocantinópolis, ao norte de Goiás. Segundo Palacin, (p. 119), ele escolheu essa cidade devido a sua proximidade com o Maranhão e a facilidade de comunicação com Grajaú.
Em Boa Vista, aonde chegou e

Fez então uma viagem à capital de Goiás, onde em audiência com o então Governador Rocha Lima, falou do seu propósito de contribuir junto com toda sua família, pela grandeza e desenvolvimento do município. Chegou, assim, a conquistar a simpatia do Governador. Segundo MARANHÃO:

Sua presença respeitável e modos educados conquistaram a simpatia do Governador Rocha Lima, que o atendeu em toda plenitude, dando-lhe o necessário apoio para sua estabilidade política. Mandou para Boa Vista um Juiz, o Dr. Cantídio, que não transgredia uma linha das recomendações oficiais e o Promotor Público era genro do Coronel Leão.

Tais deferências acabaram produzindo ciúmes no Padre João (João de Sousa Lima), filho da terra, sacerdote que tinha grande influência religiosa e política naquela localidade. Foi inclusive eleito Deputado Estadual pelo Norte de Goiás.  Ele não viu com bons olhos a chegada de Leão à cidade, principalmente quando este começou novamente a envolver-se na política. Há informações de que Leão Leda obteve certo prestígio em Boa Vista, pois ao apoiar a candidatura de um parente seu às eleições municipais, este obteve a maioria dos votos, o que levou o Padre João, a declarar que esses votos haviam sido comprados.

A crise entre os partidários do Padre João e os de Leão Leda se intensificava a cada dia e o padre usava o púlpito da Igreja para, em seus sermões, atacar o adversário, incitando disfarçadamente o povo a liquidar com ele e seus amigos.  Nessa missão infame teve a ajuda do Frei Domingos Carrerot, um religioso dominicano, de origem francesa, que esteve temporariamente em Boa Vista e em 1911 se tornou o primeiro bispo de Conceição do Araguaia, sob o título de Dom Domingos. Ele teria importante participação na trama que planejou o assassinato de Leão.

Em 1907 ocorreu a luta armada entre os dois grupos. O Padre João foi para Carolina no Maranhão, bem próximo a Boa-Vista e lá, juntamente com o Coronel Pinto e outros partidários, arregimentou e armou um grande número de homens e decidiu sitiar Boa Vista. Fechou todos os caminhos que levavam à cidade, deixando a população sem víveres, criando-se uma situação insustentável.

Nesse momento, um grupo de partidários de Leão Leda, segundo OTHON MARANHÃO, “num assomo indômito de coragem ou loucura” resolveu enfrentar os “revoltosos” comandados por Padre João (p.90). Na localidade denominada Varjão, às margens do Tocantins os dois grupos se enfrentaram. O Jornal Pacotilha conta a história desse trágico combate, em artigo escrito pelo juiz Cantídio Bretas e publicado dois anos depois de ocorrido o fato.  Segundo ele, nessa luta perdeu a vida Thomaz Moreira, primo, grande amigo, genro (havia casado com sua filha Mundoca, viúva de Rosa Lima) e braço direito de Leão.  Thomaz Moreira, nos diz Bretas, “bateu-se como um bravo e morreu como um herói, ele que era meigo e carinhoso sob seu teto, no recesso de seu dileto lar, valente e indomável na pugna em prol de um princípio” . Esse assassinato ocorreu em 23 de maio de 1907 e há informações de que o Superior Tribunal de Goiás Velho expediu um habeas corpus em favor de Padre João e seu grupo, evitando que fossem presos.

Consternados com a morte de Thomaz, cujo corpo, segundo consta nesse artigo, foi queimado e lançado às águas do Tocantins, ao grupo de resistência nada mais havia a fazer senão abandonar suas posições e deixar que os “revoltosos”, superiores em número e munições, entrassem na cidade e se apoderassem dela. 

Segundo consta, a partir desses acontecimentos, Leão Leda dirigiu-se para Conceição do Araguaia, onde contava com diversos parentes, que o acolheram. Mais uma vez perdera todos os seus bens e financeiramente achava-se em situação difícil. Mas não haveria de encontrar a paz. A perseguição do padre João e agora mais ainda do Frei Domingos Carrerot continuava. Nesta cidade o velho líder, agora sexagenário, iria encontrar a morte.

Os acontecimentos que culminaram com o ato final da tragédia, o assassinato de Leão, seu filho Mariano e alguns dos seus amigos, são narrados em um conto de Moura Lima. É interessante destacar o trecho onde ele narra a iniciativa de Frei Domingos Carrerot, Superior de Conceição do Araguaia e Padre João - em organizar um grande grupo armado para tirar a vida do seu adversário. Diz ele:

E ali, no cochicho de rosário, Sipaúba, Zeca Mourão e os padres tomaram uma corajosa decisão: mandaram chamar a caboclada do sertão pra salvar Conceição (do Araguaia). Mil e duzentos homens atenderam o apelo dos padres. Todos queriam pegar no pau-furado, pra combater o macoteiro e seus paus-de-sebo.

Preparada a cena da tragédia, não é de admirar que os acontecimentos começassem a se precipitar após a tradicional “reza” na Igreja, ao final do dia 7 de março. Leão achava-se em Conceição do Araguaia.   É o próprio Frei Domingos Carrerot quem narra os fatos em uma coluna, no Jornal “O NORTE DE GOYAS”, publicada em 12 de março de 1909, três dias após o assassinato de Leão:

Logo depois da reza, organizou-se um imponente préstito que percorreu as ruas sem armas, rompendo o silencio da noite unicamente para gritar vivas nas portas dos amigos. Inútil dizer-lhe que a passeata principiou e acabou na Igreja.

Era um ato de provocação, em que o Padre, com o apoio do Frei Domingos Carrerot, manipulava seus fiéis para acender o estopim que iria por em ação os 400 homens que esperavam armados, prontos para atacar (segundo narrativa do frade, eram 1.200 homens). Aguardavam apenas uma pequena reação de Leão e seus homens para justificar o início da carnificina. O clima de terror varou a noite e segundo conta Frei Domingos, a fuzilaria começou no dia seguinte, 8 de março, quando principiava a missa. Leão e seus homens, narra o frade, achavam-se entrincheirados na casa de Pedro Solino e casas vizinhas. A fuziliaria permaneceu durante todo o dia, continuou a noite e ainda prosseguia ao amanhecer do dia 9. Chegava a hora final. O Frei Domingos Carrerot conta os detalhes da tragédia que ele ajudara a planejar, em sua reportagem publicada no jornal:

Pediram nessa hora a minha intervenção, e si bem que lembrado dos acontecimentos de Boa vista do tempo do fr. Gil, fui com Norberto avistar-me com o Leão para dar paz, apesar de julga-la impossível.  Por duas vezes Leão consentiu a tudo, a desarmar, a afastar-se, não queria porém, sair sem ser acompanhado por mim. A isto o povo não quis consentir. Então, não podendo prestar ao infeliz a única garantia que pedia, e não o querendo ver matado (morto) aos meus lados, deixei-o, não tinha o Leão mais nada a fazer senão preparar-se à morte.

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