Histórico da Família Léda

Como se pode ver, Leão naquele momento final propôs entregar-se desarmado. Nada mais havia a fazer. Queria apenas ter preservado seu direito a um julgamento justo e a sua vida. Desejava sair de casa para entregar-se, mas precisava da garantia de que não atirariam nele. Naquele momento trágico, apelou ao frade, pediu sua companhia para sair, porque sozinho tinha certeza de que seria morto. Mas o espírito cristão de Frei Domingos tal qual o do Padre João, era apenas uma farsa. Os interesses políticos, as ambições de poder, falavam muito mais forte em seus corações, que os ensinamentos do Cristo. E ao negar o último pedido do seu inimigo político deixando-o a mercê dos assassinos que eles ajudaram armar, deixaram bem visível o caráter de vingança e ambição que os dominavam.

OTHON MARANHÃO, em seu livro Setentrião Goiano, ao narrar este triste episódio, imagina como teria sido o último diálogo entre pai e filho naquela hora angustiante. Vejamos o texto, que traz uma grande carga de emoção:

Alguns momentos passaram juntos, pensando, conversando. Que diriam? Talvez pedindo clemência ao Pai: um sexagenário, cabelos grisalhos, caminheiro errante na vida terrena, sem compreender as oscilações do destino e sem tolerância para suportar as agruras do carma na sua prolongada lapidação espiritual: o outro, jovem, na flor dos anos, inteligência viva a deslumbrar-lhe brilhante futuro, na sua transitória existência e a encher-lhe o coração de ilusões e de esperanças. Tudo ali, prestes a findar. Caprichos da vaidade humana... 9 horas da manhã... A porta abriu-se, Leão e Mariano saíram emparelhados, olhos fitos no céu, sem um gesto de súplica e sem vislumbrar, ao menos um olhar de compaixão, sendo alvejados por dezenas de tiros que saíam de quase todas as portas e janelas.

Sobre Mariano Leda, o Jornal O NORTE de Barra do Corda, de 03/04/1909, em artigo em que narra o assassinato de Leão e seu filho, comenta:

Seu jovem filho Mariano, que tão heroicamente ao seu lado morreu, era um moço inteligente, simpático e que poderia ter alcançado na sociedade posição condigna do seu nascimento, das tradições honrosas da sua família, da instrução que em Carolina recebeu do provecto educador Aníbal Mascarenhas, se a amizade filial não o impelisse a tomar parte com seu pai nessas lutas, da última das quais acaba de ser vítima.

Voltemos ao final do texto do Frei Domingos:

O assalto principiou largo, ardente, irresistível. Invadiram a casa, Leão suplicou, mas morreu na mesma hora, e com ele o seu filho Mariano e sete camaradas. “Treze outros foram presos” Da parte de Conceição (do Araguaia) não morreu ninguém

E prossegue:

Apenas acabado o ataque os 1.200 homens saem de joelhos gritando: Viva Nossa Senhora da Conceição, e dando salvas enquanto centenas de rifles dão repetidas salvas de alegria.

PALACÍN, em seu livro “Coronelismo no extremo norte de Goiás”, fala sobre a existência de um bilhete assinado por Leão e Mariano naquela hora terrível, dirigido aos Padres e Irmãs, pedindo em nome de Deus que fossem até eles para conversar e salvar suas vidas. (p. 150). Nada, porém, demoveu os religiosos do seu intento de permitir e garantir o massacre.

Concretizou-se assim o ato de selvageria e covardia, que tirou a vida de um homem, de seu filho ainda na flor da idade e de alguns dos seus amigos. Massacre vil e abominável, tramado e abençoado pelos religiosos Frei Domingos e Padre João e, no dizer do frade, supostamente por Nossa Senhora da Conceição!

Era a manhã do dia 9 de março de 1909.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após a morte de Leão, continuou o ultraje a sua memória. Seus familiares e descendentes temiam declararem-se Leda, por motivo de segurança. Muitos membros da família Leda deixaram o sertão maranhense, refugiando-se em outros municípios ou Estados.

Dos filhos de Leão, sabe-se que pelo menos Manoel e Maria Amélia se mudaram para Pernambuco, onde hoje seus descendentes ainda podem ser encontrados nas cidades de Petrolina, Juazeiro, Feira de Santana, Salvador e Recife.

Através de informações de parentes, sabe-se que D. Virgínia, esposa de Leão, terminou seus dias em Grajaú, onde viveu em situação de quase reclusão e em estado de penúria, visto que da antiga riqueza nada mais existia. Em 1938, ela foi visitada por Francisco, filho de Luis Leda que residia em Barra do Corda e que relatou tê-la encontrado quase cega.

Segundo alguns familiares, até sua morte ela procurou esquecer os dias de angústia e sofrimento que vivera. Sua defesa foi o silêncio, negando-se a falar, comentar, emitir opinião sobre todos os fatos que marcaram tão tragicamente sua vida em companhia do marido.

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